quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Os males do mundo e Deus


Tragédia na Madeira: Árvore centenária cai sobre multidão que comprava velas para a festa do Dia da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, matando 13 pessoas e fazendo 50 feridos



1. Deus não tem a ver com a morte e o sofrimento neste mundo, porque como disse Jesus, "o meu reino não é deste mundo", porque se fosse, "teria a defendê-lo batalhões de anjos". Deixou-se prender, julgar e condenar à morte, sem obstar a essa actuação humana, porque Ele não era deste mundo, mas viera para salvar o Homem da vida finita deste mundo, a quem ele oferecia uma outra vida e uma "vida em abundância", ou seja, sem o limite da morte do mundo material.

2. Deus é o Incognoscível pelo atributo de ser transcendental, ou seja, Aquilo/Aquele que nos transcende. Assim, não se equipara a ovnis, signos, Júpiteres ou afins. A existência de todo o Universo, em que nós nos incluímos, é um mistério tão profundo quenão podemos nomear a sua Origem (os judeus - Moisés - diziam que Deus é, simplesmente, AQUELE QUE É, ou seja, sem definição vocabular com significado). Nada se pode saber nada dessa Origem Primordial por estar para além das capacidades cognitivas do Homem. Só quem é cristão, acredita que Jesus Cristo é esse Deus com uma encarnação humana porque quis resgatar a humanidade do mal em que caiu e dar-lhe a oportunidade de a levar, após a morte, para a Casa do Bem Eterno d'AQUELE QUE É.

Teresa Ferrer Passos

(Duas postagens-comentário a António Costa Santos no Facebook em 16/8/2017)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Aparições de Maria



Em cada imagem, há um sentido
próprio, inviolavelmente belo.
A imagem pronta para os olhos ávidos
de coisas, coisas sensíveis,
tão em si mesmas visíveis.
E a imagem é a Senhora
mais luminosa do que o Sol, viram-na os pastorinhos.

Que força possuiu Maria, a descer do céu.
Que impetuosa ascensão para a Sua morada.
Que imagens a maravilhá-los.
Apareceu Maria, como uma estrela intensa,
distante, cheia de proximidade.
Que sensação vê-la ali, quase ao lado deles,
a transcendê-los e igual à sua imanência!

Oh aparição de Maria, nesses dias 13
do ano de 1917!
Senhora, cercada de relâmpagos de luz e,
ao mesmo tempo, com palavras iluminadas de fé,
uma fé visível,
tão visível de significados,
como sentiram os olhos das crianças.

Oh imagem bela e perfumada de Maria.
Apareceste como qualquer outra mulher,
apareceste como qualquer mãe.
Imagem de Maria a aparecer 
para a conhecerem os mais simples do mundo, as crianças.
E, precisamente, conheceram-na,
de viva voz e com os seus próprios olhos!

Dia da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, 15 de Agosto de 2017

                                      Teresa Ferrer Passos

sábado, 12 de agosto de 2017

Um poema de Miguel Torga


Hoje, dia 12 de Agosto, lembramos o 110º aniversário do nascimento do Poeta e Ficcionista Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha). Aqui deixamos o seu poema intitulado «Depoimento», datado de Coimbra, 15 de Fevereiro de 1981:

«De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer,
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.»

In Diário, XIII volume, Coimbra, 1983, pág.163.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Há 69 anos...

       Há 69 anos nascia uma menina que se chamaria Teresa, filha de Natércia, a mulher que tanto desejou o seu nascimento!
       Aqui deixo duas fotos, uma com quatro meses, outra com quatro anos e sua mãe.
     

Junto um poema de meu marido, oferecido hoje:

JANEIRO E AGOSTO

Abriste uma porta dentro do meu ser
Por onde eu saí ao teu encontro.

Pegaste-me na mão
E fizeste-me subir a longa escadaria
Que vai do inverno até ao verão,
Que vai da noite até ao dia,
Que vai da tristeza à alegria,
Que vai do pensamento ao coração.

Eu vinha do frio agreste de Janeiro
E subo ainda
Seguindo cada linha do teu rosto ─
Mapa da promessa linda
Da plenitude de luz do teu Agosto.

9/8/2017
                   Fernando Henrique de Passos

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Da água...




Das águas  soltavam-se cores 
num turbilhão de arco-íris.
As cores mais belas do mundo!
E, na imensa leveza da água,
nasciam estrelas
mais brilhantes que o Sol.
Uma música cheia de paz ressoava algures.
Donde vinha? Seria da água vasta e terna?
Indiferente, eu saltava
e saltava de novo... Saltava
como se nunca o tivesse feito.
   
27 de Julho de 2017
                                       Teresa Ferrer Passos

quinta-feira, 20 de julho de 2017

No princípio de nós


Cafetaria da Fundação Calouste Gulbenkian


do princípio de nós ou da beleza


numa chávena de café estremecem os teus dedos
convexos demais. Num espaço irreal
descubro grãos negros. Vejo incêndios
perpetuados em água. Vulcões negros soltam-se.

véus de nuvens densas mostram um cérebro
a escorrer seivas brancas. E os sentimentos
não transparecem. Tudo é baço, estranho talvez.

olho o café como se visse uma laranja doce.
Um encontro marcado e inclemente? Vejo o nada.
Onde estás? Pergunto.
E, tu, levantas o olhar turvo,
de súbito, para mim.

20 de Julho de 2017 (24º aniversário do nosso primeiro encontro na Cafeteria da Fundação Calouste Gulbenkian)
                                                        
                           Teresa Ferrer Passos






O LIVRO VERDE DO AMOR

Encontrámo-nos numa biblioteca
No centro de um jardim
E os livros da larga biblioteca
Escutaram com atenção minuciosa
As primeiras palavras que trocámos
E contaram-nas aos cisnes e aos peixes
E aos pardais, às joaninhas e aos melros
Que as foram repetindo sem descanso
Até elas ficarem imprimidas
No sussurrar da brisa na folhagem
E no bater do coração das árvores
E no tremer das águas nos riachos
Como as palavras de um livro transparente
Que nós ouvimos a cada regressar
À biblioteca no meio do jardim.

20 de Julho de 2017

                     Fernando Henrique de Passos

terça-feira, 11 de julho de 2017

Um poema de Maria d'Eça O'Neill para minha Mãe



Teresa e sua Mãe, no quintal da casa,
em Coimbra
(1956)

No 27º aniversário da morte da minha amada Mãe,
uma lembrança de poesia - a poesia que ela tanto gostava de decorar, e, depois declamar, nos momentos apropriados.

VISÃO DO CEU

Eu amo a nuvem doirada
Que vagueia pelos ceus.
Amo a noute, quando a terra
Envolve em seus negros veus.

Amo a estrella scintillante
Com o seu grato fulgor.
Eu amo o brilho da lua
De que a prata imita a côr.

Amo o barco que fluctua
Do meu patrio Tejo á flor,
Amo o canto d'avesinha
Que só diz - amôr, amôr.

Amo a tarde quando o occaso
Tinge o céu de varias côres.
Amo o bosque que o acaso
Matiza com lindas flores.

Amo da pomba a doçura,
Do tigre a ferocidade;
Amo do cysne a brancura
E da aguia a liberdade.

Mas o que sobretudo amo
É, dilecto, um olhar teu,
Que nas tristezas da terra
Mostra os encantos do ceu.

Maria d'Eça O'Neill, Nimbos, Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, Lisboa, 1908, pp.179-180.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Efrém, o Santo e o Poeta Sírio


Santo Efrém (306-373), teólogo e grande poeta sírio


O poeta sírio Efrém (306-373) cultivou a teologia cristã como uma sabedoria literária e poética. Nascido em Nisibe, na Síria (hoje Turquia) ofereceu-se para servir a Igreja cristã. O Bispo Tiago, nesta cidade, deu-lhe protecção e, vendo a sua inteligência, fê-lo diácono. Mais tarde, convidou-o para formar uma escola teológica em Nisibe. Quando o Imperador de Roma, Juliano, entregou Nisibe aos persas pagãos (seguidores de Zoroastro), Efrém exilou-se, com os seus discípulos e fundou outra escola teológica na cidade de Edessa (cidade síria nos tempos antigos e atualmente turca com o nome de Urfa).

Nisibe, atual Nusaybin no sul da Turquia,
perto da fronteira norte da Síria

Ambas as escolas combatiam as heresias que cresciam dentro da própria Igreja. Perscrutando a emoção de que está revestido o cristianismo, e conhecendo bem a natureza humana, Efrém viu na poesia, na composição musical e na prosa poética, a grande força da busca da verdade e da conversão dos pagãos. Assim, contemplativo e asceta, escreveu hinos de louvor, orações, composições musicais e uma prosa imbuída de poesia.


Para Efrém, a liturgia, como expressão artística (declamação de poemas, cânticos musicados, etc), consegue transmitir a doutrina de modo muito mais eficaz para as conversões ao cristianismo  do que longos discursos de fundamentação filosófica (racionalista). A sua teologia nova, cheia de emoção, aliava-se à altura poética e literária de Efrém. Os seus dotes fazem-no ascender à craveira de santo e Doutor da Igreja em 1920 (com o Papa Bento XV). Pela beleza dos seus escritos teológicos foi chamado «a harpa do Espírito Santo».



Neste primeiro centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima (1917-2017), lembremos como Efrém, o Sírio, invocou Maria, Mãe de Cristo, de um modo grandioso:

«Mais resplandecente que o Sol, conciliadora do céu e da terra, paz, alegria e salvação do mundo».

Num dos seus Hinos à Virgem, escreveria:

«Convida-me a Virgem a cantar o mistério que contemplo com admiração. Dai-me, ó Filho de Deus, o vosso admirável dom, pelo qual eu afine minha lira e consiga pintar a imagem toda bela da vossa bem-amada Mãe.»

Sobre a Natividade, Santo Efrém, exaltando a grandeza humana de Maria Santíssima, sublinha, com um tom de profunda beleza, toda a humildade de Deus:

«O Senhor veio a ela
para tornar-se servo.
O Verbo veio a ela
para calar em seu seio.
O raio veio a ela
para não fazer ruído.
O pastor veio a ela,
e nasceu o Cordeiro, que chora docemente.
O seio de Maria
trocou os papéis: 
quem criou tudo
apoderou-se dele, mas na pobreza. 
O Altíssimo veio a ela (Maria), 
mas entrou humildemente.
O esplendor veio a ela, 
mas vestido com roupas humildes.
Quem tudo dá 
experimentou a fome.
Quem dá de beber a todos
sofreu a sede. 
Saiu dela nu, 
quem tudo reveste (de beleza)»

(Himno «De Nativitate» 11, 6-8)


O poeta e teólogo Santo Efrém, viria a ser um precursor da tradicional forma síria de fazer teologia. A sua devoção por Maria, levou-o a estar entre os primeiros que a Igreja cantou, ao revesti-la de glórias imensas. Na Igreja cristã do Oriente, chamaram-lhe  o Poeta de Nossa Senhora. 

6 de Julho de 2017 (dia em que se celebrou o meu Batismo, aos 11 meses de idade)

Teresa Ferrer Passos




quinta-feira, 15 de junho de 2017

Cristo, o Corpo de Deus




Num jardim, vejo as flores
a saltar da terra virgem. E um perfume forte
inebria um Corpo. O do Deus vivo.
Um Corpo que renasceu, depois de morrer.

Viveu na sabedoria, envolto em voz.
Junto dos corpos pôs fim ao sofrimento.
Junto das almas iluminou os pensamentos.
Não acenou, soberbo, às multidões.
Não recebeu aplausos nem distinções.

Encheu de sentidos novos cada pessoa.
Cansado, sentiu a fadiga a curvá-lo.
Orando a cada instante, não adormeceu
ante os males de tanta gente.

O Corpus Christi oferecia a clemência
aos que se arrependiam, dava a alegria aos amargurados,
curava as dores dos mais flagelados.

O Corpo de Cristo respirava a contingência
e espargia o Amor do Pai. Sentia a beleza da
Virgem Maria, a Sua Mãe.
E transparecia toda a Palavra do Espírito,
a Sua essência.

Cristo, o Corpo de Deus aí está, a guardar-se ainda,
escondendo-se no Seu Coração sagrado e infinito.

Dia do Corpo de Deus, 15/6/2017
                                            Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 13 de junho de 2017

Oração de Santo António a Maria Santíssima


Santo António pregando aos peixes
Azulejo de faiança policromada do século XVII,
Museu da Cidade, Lisboa


Nós Te suplicamos, Senhora nossa,
insigne Mãe de Deus,
elevada sobre o coro dos anjos,
que enchas de graça celeste o nosso coração,
o faças resplandecer com o ouro da sabedoria,
o fortaleças com a tua força,
o adornes com as pedras preciosas das virtudes.
Ó bendita Oliveira,
derrama sobre nós o óleo da tua misericórdia,
para que cubra a multidão dos nossos pecados,
e assim sejamos elevados à altura da glória celeste
e possamos gozar a bem-aventurança dos santos,
com o auxilio de Jesus Cristo, teu Filho,
que Te exaltou sobre os coros dos anjos
e Te coroou com o diadema do Reino,
sentando-Te no trono da luz eterna:
a Ele, honra e glória pelos séculos eternos.

Santo António de Lisboa (1195-1231)



Santo António ressuscita a menina morta


***


Santo António


«Tudo quanto pedirdes com fé, na oração, recebê-lo-eis»
Mt 21,22

«Se vós estiverdes em Mim e as Minhas Palavras estiverem em vós, 
pedireis tudo o que quiserdes e ser-vos-á concedido»

Jo, 15, 7


Batizado com o nome de Fernando de Bulhões, tomaria, já em Itália, o nome de António. Formado na escola dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, em Coimbra, ambicionava ser missionário. Viajando para a Mauritânia para evangelizar essas terras, regressava a Portugal por ter caído doente, quando o barco, devido a uma tempestade, o levou para Itália, onde acabou por se curar. Contudo, não regressaria a Portugal. Tendo morrido em Pádua, em 1231, com apenas 39 anos, foi canonizado pelo Papa Gregório IX, apenas um ano depois.

Entre os seus milagres em vida, estão a ressurreição de uma menina e a cura de uma amputação. As suas pregações eram ricas de dotes oratórios; o seu amor aos pobres e a todos aqueles que via serem vítimas de injustiça, tornaram-no um franciscano de carisma idêntico ao de S. Francisco de Assis que conheceu pessoalmente. 

Com o espírito de Francisco se identificava no sentido pleno da fraternidade e da grande devoção à Virgem Maria. Pela iconografia conhecida de Santo António, o Menino Jesus, símbolo magnífico da ternura, da simplicidade e da humildade da criança, está sempre entre as suas mãos e sob o seu olhar doce e delicado. A esta iconografia não deverá ter sido estranha a sua visão seráfica do Menino Jesus.

Lisboa, 13 de Junho de 2017 (786º aniversário da morte de Santo António em Pádua)


Teresa Ferrer Passos  

Santo António e a visão do Menino Jesus

***

sábado, 10 de junho de 2017

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas no mundo


No dia 10 de Junho de 1580 morria Luís de Camões, o príncipe dos Poetas da Europa. Foi ele que cantou, em versos de altura insuperável, a verdadeira dimensão das aventurosas viagens de descobrimento de Portugal por um mundo ainda tão ignorado.
Um mundo novo começara a erguer-se com os sábios da arte da navegação e com a grande frota naval das caravelas. Tudo se tornou diferente no ano de 1419, ano da primeira descoberta: a ilha a que chamaram da Madeira. E quantas ilhas depois para o Ocidente da costa atlântica de Portugal e quantas para o sul da África e para o seu Ocidente, com o descobrimento do novo continente, a que se chamaria América do Sul.
O país mais ocidental da Europa, essa faixa atlântica da Península Ibérica, Portugal, projectava-se no Atlântico profundo, depois no Índico guerreiro e ainda no fabuloso Pacífico de tantas diferenças. Ao longo do século XV, os mares cruzava e oferecia à Europa novos povos, novas geografias, novas riquezas.
Os portugueses, tornavam nova a sua velha Europa, os seus povos, cheios de surpresa e já a vislumbrar auspicioso futuro. E toda a Europa se renova e se quer confrontar com o país descobridor, a começar por Espanha. E muitos, os maiores, seguem a estrada aberta pelos portugueses: nos mares dos progressos ainda distantes e nas terras da prosperidade logo sonhada, penetram sem olhar para trás.
Teresa Ferrer Passos

Escrevia Camões em «Os Lusíadas» (Canto V, 3-4 e 86):
«Já a vista, pouco a pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficaram;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam,
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam,
E já despois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.
Assi fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares.
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à dereita
Não há certeza doutra, mas suspeita.
(...)
Julgas agora, Rei, se houve no mundo
Gentes que tais caminhos cometessem?
Crês tu que tanto Eneias e o facundo
Ulisses pelo mundo se estendessem?
Ousou algum a ver do mar profundo,
Por mais versos que dele se escrevessem,
Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,
E do que inda hei-de ver, a oitava parte?»

sábado, 3 de junho de 2017

Recriar o mundo em Cristo, aceitação radical de Maria

Dom Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca de Lisboa,
no Colóquio Comemorativo do 1º Centenário das Aparições de Fátima 


  «Quando a tradição católica diz “imaculada conceição” e “imaculado coração”, exprime a convicção de que Deus criou e encontrou sempre alguém em que pôde incarnar o seu Verbo e aparecer neste mundo, como que uma nova terra onde nascesse o homem novo, Jesus Cristo.

  Por isso “cheia de graça” e constante “sim” à vontade recriadora de Deus. Estar do lado de Deus, para recriar o mundo em Cristo, é por isso estar com Maria e o seu coração imaculado. É aceitar e cumprir o Evangelho vivo. 

   Tendo tudo isto presente, poderemos entrever como o que se passou há um século com os Pastorinhos se insere na visão bíblica das coisas e na maneira católica do respetivo acontecer.

   A vontade de um Deus que não desiste de recriar o mundo em Cristo e a aceitação radical de Maria em incarnar tal vontade.» 

Fátima, 27 de maio de 2017

     Manuel Clemente, «Fátima no contexto do catolicismo contemporâneo» in Colóquio Comemorativo dos 100 anos das Aparições de Fátima (Internet, Patriarcado de Lisboa)

terça-feira, 16 de maio de 2017

O perdão

"Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física , emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença".
Papa Francisco


O perdão faz renascer a alma,
de quem o oferece e de quem o recebe.
16/5/2017
                                                                  Teresa Ferrer Passos

sábado, 13 de maio de 2017

«Temos Mãe!»



«Temos Mãe! ... Ficaram dentro de uma luz de Deus ... Fátima é este manto de luz que nos cobre quando nos refugiamos sob o manto de Maria ...
Temos Mãe!... Nossa Senhora introduziu-nos no manto de Deus... Quando passamos por uma cruz, Ele já tinha passado por ela...
Sob a proteção de Maria sejamos sentinela da madrugada ... A igreja brilha quando é missionária ... pobre de meios e rica de amor»

     Algumas palavras do Papa Francisco, hoje, na missa da canonização dos pastorinhos, Jacinta e Francisco Marto, as duas primeiras crianças do mundo, proclamadas santas e que não foram mártires.


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«Maria é a suprema obra-prima do Altíssimo, cuja beleza só Ele conhece e reservou para Si.
Maria é a Mãe admirável do Filho que Se compraz em a fazer pequenina e escondida durante a vida, para acrescer a sua humildade, tratando-a pelo nome de mulher, como se fora uma desconhecida, embora no coração a tivesse em maior conta e a amasse mais do que a todos os anjos juntos.
Maria é aquela fonte selada, esposa fiel do Espírito Santo, único que nela pode entrar.
Maria é o santuário e lugar de repouso da Santíssima Trindade»
   Luís Maria de Monfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, Paulus editora, pp.20-21.


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AMOR E RAZÃO

                            Ao Papa Francisco

O mundo espera-me. O mundo chama-me. Eu penso o mundo.
Tento cartografar o mundo
numa folha de papel milimétrico muito lisa
que me deixou Descartes uns séculos atrás.
Procuro-lhe a ordem. Mas o mundo grita-me:
“A minha ordem é a desordem!”
Procuro-lhe a lei. Mas o mundo grita-me:
“A minha lei é a não-lei!”
Procuro-lhe a lógica. Mas o mundo diz-me:
“Eu sou redondo e a minha lógica
curva-se sobre si mesma como um círculo;
não tentes encontrar princípio ou fim.”
Procuro-lhe a vontade. Sussurra-me ele então:
“Não me desejes nem receies; ama-me
e então a minha vontade será tua
e caminharemos juntos até Deus;
mergulha em mim sem bússola e sem régua,
sem transferidor e sem relógio,
e deixa o teu coração acertar-se pelo bater do meu;
mistura os teus nervos com os meus,
sente o que eu sinto,
vê o que eu vejo,
e nunca mais terás necessidade de pensar,
pois nessa altura conhecerás tudo aquilo
que sempre desejaste conhecer.”

11/5/2017

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Colóquio sobre os 100 anos das Aparições em Fátima

   

   Em presença de posições convergentes ou divergentes, o fenómeno sobrenatural das Aparições de Fátima será abordado neste Colóquio Comemorativo dos 100 anos das Aparições, promovido pela Reitoria do Santuário de Fátima e pela Academia Portuguesa de História.

   Poderemos considerá-lo como um ponto de partida para a formulação, em termos inovadores, de um pensamento teológico aberto pelo confronto do Evangelho de Jesus Cristo com as mensagens de Sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria.

10 de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um romance a refletir sobre o materialismo contemporâneo [1]


  
Uma “fantástica viagem pelo mundo do irreal” é a viagem do cientista Taoj no romance que intitulei Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco” (Chiado Editora, 2015). A personagem Taoj é, nesta narrativa, o protótipo do homem contemporâneo, enlaçado nos liames das ideologias materialistas propagadas por uma plêiade de intelectuais. Desde o século XVIII, o racionalismo impõe-se e avança cada vez com mais poder de infiltração nas camadas populares.

Os caminhos da ciência prolongam-se pelos caminhos do romancista como pelos dos homens de ciência e da política. O descrédito da Igreja Católica torna a religião como um feudo de crendices e superstições. O marxismo infiltra-se assim com mais facilidade e derruba os seus bastiões populares. No século XIX as ideologias materialistas conquistam terreno a olhos vistos. O cristianismo soçobra ao perder o seu verdadeiro sentido, ofuscado por alguns dogmas da Igreja Católica.

Quer o socialismo ateu, quer o liberalismo são materialistas. Neste ponto, recusam a dimensão espiritual do Homem que tem a ver com sofrimento, com o mistério de Deus, com a felicidade eterna e não efémera, com o amor no coração de cada homem e não com o amor defendido pelo socialismo, o amor em abstrato e global. A passos largos, acabam ambos por caminhar no mesmo sentido. A prova está na sociedade contemporânea dos nossos dias. 

Nesta mundialização, que se vem alargando a grande parte do mundo, o dinheiro é a solução. O dinheiro é o fulcro de todos os sentidos das revoluções, as proletárias e as das elites das classes média e alta. O dinheiro é o cerne da luta dos materialistas ateus e defensores do estado socialista e é, igualmente, o cerne da luta da ideologia do liberalismo económico, na feição dos liberais e ultra-liberais.

Entre a 2ª metade do século XX e este princípio do século XXI estão erguidos os alicerces da felicidade terrena levantada pelo socialismo proletário. Os mesmos suportes erguem-se com o liberalismo político e económico. Da Europa Ocidental à Europa de Leste, da América à China, em parte a África, estas duas fações, na aparência contrárias, avançam no mesmo sentido: o materialismo ateu da vida contemporânea.

Formou-se uma mentalidade materialista que hoje prospera com a força da imagem ao serviço do consumismo desenfreado da maioria. A fé no cristianismo esconde-se em minorias cheias de medo. A periferia dos excluídos pelo espírito, silencia-se, esconde-se. Os intelectuais vitoriosos exultam na venda dos seus produtos literários, científicos e artísticos sem se distinguirem dos objetivos do materialismo ateu. Têm ao seu serviço os meios de comunicação social e as redes internéticas. A internet contém a pedagogia do materialismo e do ateísmo que o secunda. Tudo gira à sua volta.

Neste romance, procurei espelhar o peso, na sociedade, do racionalismo materialista vitorioso. Simboliza-a um ecrã de computador que dá todas as pistas ao cientista Taoj. A folha de papel em branco significa o vazio do tudo é permitido, mas não vislumbra a felicidade prometida. Na vigília, no sono ou no sonho, Taoj não sai do mundo fictício onde a sociedade materialista contemporânea o lançou.

Tudo o resto, o amor à família não passa pelo seu coração, o amor aos outros é-lhe estranho, porque, para ele, os outros são sempre os outros. Como pode amá-los de verdade, se estão separados pelo muro do egocentrismo? Poderia perguntar Dostoievski, o autor de Os Irmãos KaramazovPara Taoj, o mundo da matéria reduz-se ao mundo do corpo a que falta a sua cabeça. Procura-a sem cansaço, porque só o seu corpo tem sentido e se lhe falta uma parte é o desespero. A personagem Taoj sente-se, como o homem contemporâneo, esmagado pelo fracasso do presente, quando lhe prometem a felicidade, uma felicidade ao seu alcance e a frustração desespera-o como se fosse igual à morte.

Perdido em códigos, endereços, programas, estradas, recursos do ecrã, só descobre becos sem saída ou muros alheios à felicidade. A solução parece estar sempre à vista, sempre à mão de semear, mas a solução é falsa porque a carne está transformada em ídolo e recusa sequer uma espreitadela para o espiritual. Os paradoxos da vida humana tornam-se comuns a todos porque todos esqueceram que tinham alma e assim aceitam costumes por onde passa o sórdido ou o abjecto.

A cabeça perdida representa a razão, única realidade em que Taoj acredita: «Cheio de horror de si e do seu mal-estar-no-mundo» (p.42). Mesmo quando encontra a razão, depois de várias aventuras, afinal, numa terrível imobilidade, não encontra a felicidade. As mil e uma imagens oferecidas pelo ecrã, o diálogo nas redes internéticas acaba por se revelar fictício ou falso. E grita: «o inferno está aqui, aqui dentro de mim (p.103)». Numa procura infindável, cai na procura impossível: os mistérios maiores de um Criador que não sabe nada sobre a sua própria Origem.

Na 2ª parte como que se inicia um outro romance: a procura de Taoj vai transformar-se na procura de um Deus que, como ele e à sua imagem, procura a sua felicidade. Uma ambição mais forte ainda. O ecrã das imagens dos códigos, das autoestradas internéticas continua a guiar Taoj, indiferente aos absurdos em que se encaixa a sua sede impossível de suster o desejo de desvendar todos os mistérios, mistérios que vê como ilusórios porque só são mistérios enquanto não se descobrem.

Indiferente aos valores do espírito que eleva a matéria e a sustenta até à eternidade, mesmo a carregar o peso das imagens dos «corpos amolgados pelos bairros da lata e os uivos das mulheres agredidas e a criança violentada como se fosse o lôdo dos pântanos» (p.270), inicia a nova caminhada centrada em Alfa, o Princípio Originário. Alfa representa o Deus Criador num mundo de nada, em que não vive, e em que a mudança é um atentado.

É ainda «na matéria em ascensão que Alfa descobre asas abertas para as distâncias do impossível» (p.294). O emergir da matéria com todos os seus absurdos (o big bang) é a saída para mais uma vez se enaltecer o mundo nascente da matéria. Na idolatria da matéria, todo o edifício do mundo do pensamento materialista ateu se ergue como se não tivesse limites, como se fosse o único possível e o único a que se deve ascender até uma vida só assente na felicidade terrena, assente no material.

As teorias revolucionárias, sem a dimensão metafísica do Homem, como pensava Dostoievski, não oferecem, acreditamos nós também, uma felicidade como o epílogo de todos os prazeres, prazeres a multiplicarem-se sem contenção e na ausência de uma porta do espírito para ultrapassar os limites da matéria.      

                                                        Teresa Ferrer Passos




[1] Texto escrito pela autora de Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco, pouco antes da sua apresentação na Fnac do C. C. Colombo, em Lisboa, a 10 de Outubro de 2015. A apresentação esteve a cargo do Professor Doutor António Cândido Franco da Universidade de Évora.