terça-feira, 16 de maio de 2017

O perdão

"Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família se torna uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece. O perdão é a assepsia da alma, a faxina da mente e a alforria do coração. Quem não perdoa não tem paz na alma nem comunhão com Deus. A mágoa é um veneno que intoxica e mata. Guardar mágoa no coração é um gesto autodestrutivo. É autofagia. Quem não perdoa adoece física , emocional e espiritualmente. É por isso que a família precisa ser lugar de vida e não de morte; território de cura e não de adoecimento; palco de perdão e não de culpa. O perdão traz alegria onde a mágoa produziu tristeza; cura, onde a mágoa causou doença".
Papa Francisco


O perdão faz renascer a alma,
de quem o oferece e de quem o recebe.
16/5/2017
                                                                  Teresa Ferrer Passos

sábado, 13 de maio de 2017

«Temos Mãe!»



«Temos Mãe! ... Ficaram dentro de uma luz de Deus ... Fátima é este manto de luz que nos cobre quando nos refugiamos sob o manto de Maria ...
Temos Mãe!... Nossa Senhora introduziu-nos no manto de Deus... Quando passamos por uma cruz, Ele já tinha passado por ela...
Sob a proteção de Maria sejamos sentinela da madrugada ... A igreja brilha quando é missionária ... pobre de meios e rica de amor»

     Algumas palavras do Papa Francisco, hoje, na missa da canonização dos pastorinhos, Jacinta e Francisco Marto, as duas primeiras crianças do mundo, proclamadas santas e que não foram mártires.


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«Maria é a suprema obra-prima do Altíssimo, cuja beleza só Ele conhece e reservou para Si.
Maria é a Mãe admirável do Filho que Se compraz em a fazer pequenina e escondida durante a vida, para acrescer a sua humildade, tratando-a pelo nome de mulher, como se fora uma desconhecida, embora no coração a tivesse em maior conta e a amasse mais do que a todos os anjos juntos.
Maria é aquela fonte selada, esposa fiel do Espírito Santo, único que nela pode entrar.
Maria é o santuário e lugar de repouso da Santíssima Trindade»
   Luís Maria de Monfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, Paulus editora, pp.20-21.


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AMOR E RAZÃO

                            Ao Papa Francisco

O mundo espera-me. O mundo chama-me. Eu penso o mundo.
Tento cartografar o mundo
numa folha de papel milimétrico muito lisa
que me deixou Descartes uns séculos atrás.
Procuro-lhe a ordem. Mas o mundo grita-me:
“A minha ordem é a desordem!”
Procuro-lhe a lei. Mas o mundo grita-me:
“A minha lei é a não-lei!”
Procuro-lhe a lógica. Mas o mundo diz-me:
“Eu sou redondo e a minha lógica
curva-se sobre si mesma como um círculo;
não tentes encontrar princípio ou fim.”
Procuro-lhe a vontade. Sussurra-me ele então:
“Não me desejes nem receies; ama-me
e então a minha vontade será tua
e caminharemos juntos até Deus;
mergulha em mim sem bússola e sem régua,
sem transferidor e sem relógio,
e deixa o teu coração acertar-se pelo bater do meu;
mistura os teus nervos com os meus,
sente o que eu sinto,
vê o que eu vejo,
e nunca mais terás necessidade de pensar,
pois nessa altura conhecerás tudo aquilo
que sempre desejaste conhecer.”

11/5/2017

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Colóquio sobre os 100 anos das Aparições em Fátima

   

   Em presença de posições convergentes ou divergentes, o fenómeno sobrenatural das Aparições de Fátima será abordado neste Colóquio Comemorativo dos 100 anos das Aparições, promovido pela Reitoria do Santuário de Fátima e pela Academia Portuguesa de História.

   Poderemos considerá-lo como um ponto de partida para a formulação, em termos inovadores, de um pensamento teológico aberto pelo confronto do Evangelho de Jesus Cristo com as mensagens de Sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria.

10 de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

terça-feira, 9 de maio de 2017

Um romance a refletir sobre o materialismo contemporâneo [1]


  
Uma “fantástica viagem pelo mundo do irreal” é a viagem do cientista Taoj no romance que intitulei Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco” (Chiado Editora, 2015). A personagem Taoj é, nesta narrativa, o protótipo do homem contemporâneo, enlaçado nos liames das ideologias materialistas propagadas por uma plêiade de intelectuais. Desde o século XVIII, o racionalismo impõe-se e avança cada vez com mais poder de infiltração nas camadas populares.

Os caminhos da ciência prolongam-se pelos caminhos do romancista como pelos dos homens de ciência e da política. O descrédito da Igreja Católica torna a religião como um feudo de crendices e superstições. O marxismo infiltra-se assim com mais facilidade e derruba os seus bastiões populares. No século XIX as ideologias materialistas conquistam terreno a olhos vistos. O cristianismo soçobra ao perder o seu verdadeiro sentido, ofuscado por alguns dogmas da Igreja Católica.

Quer o socialismo ateu, quer o liberalismo são materialistas. Neste ponto, recusam a dimensão espiritual do Homem que tem a ver com sofrimento, com o mistério de Deus, com a felicidade eterna e não efémera, com o amor no coração de cada homem e não com o amor defendido pelo socialismo, o amor em abstrato e global. A passos largos, acabam ambos por caminhar no mesmo sentido. A prova está na sociedade contemporânea dos nossos dias. 

Nesta mundialização, que se vem alargando a grande parte do mundo, o dinheiro é a solução. O dinheiro é o fulcro de todos os sentidos das revoluções, as proletárias e as das elites das classes média e alta. O dinheiro é o cerne da luta dos materialistas ateus e defensores do estado socialista e é, igualmente, o cerne da luta da ideologia do liberalismo económico, na feição dos liberais e ultra-liberais.

Entre a 2ª metade do século XX e este princípio do século XXI estão erguidos os alicerces da felicidade terrena levantada pelo socialismo proletário. Os mesmos suportes erguem-se com o liberalismo político e económico. Da Europa Ocidental à Europa de Leste, da América à China, em parte a África, estas duas fações, na aparência contrárias, avançam no mesmo sentido: o materialismo ateu da vida contemporânea.

Formou-se uma mentalidade materialista que hoje prospera com a força da imagem ao serviço do consumismo desenfreado da maioria. A fé no cristianismo esconde-se em minorias cheias de medo. A periferia dos excluídos pelo espírito, silencia-se, esconde-se. Os intelectuais vitoriosos exultam na venda dos seus produtos literários, científicos e artísticos sem se distinguirem dos objetivos do materialismo ateu. Têm ao seu serviço os meios de comunicação social e as redes internéticas. A internet contém a pedagogia do materialismo e do ateísmo que o secunda. Tudo gira à sua volta.

Neste romance, procurei espelhar o peso, na sociedade, do racionalismo materialista vitorioso. Simboliza-a um ecrã de computador que dá todas as pistas ao cientista Taoj. A folha de papel em branco significa o vazio do tudo é permitido, mas não vislumbra a felicidade prometida. Na vigília, no sono ou no sonho, Taoj não sai do mundo fictício onde a sociedade materialista contemporânea o lançou.

Tudo o resto, o amor à família não passa pelo seu coração, o amor aos outros é-lhe estranho, porque, para ele, os outros são sempre os outros. Como pode amá-los de verdade, se estão separados pelo muro do egocentrismo? Poderia perguntar Dostoievski, o autor de Os Irmãos KaramazovPara Taoj, o mundo da matéria reduz-se ao mundo do corpo a que falta a sua cabeça. Procura-a sem cansaço, porque só o seu corpo tem sentido e se lhe falta uma parte é o desespero. A personagem Taoj sente-se, como o homem contemporâneo, esmagado pelo fracasso do presente, quando lhe prometem a felicidade, uma felicidade ao seu alcance e a frustração desespera-o como se fosse igual à morte.

Perdido em códigos, endereços, programas, estradas, recursos do ecrã, só descobre becos sem saída ou muros alheios à felicidade. A solução parece estar sempre à vista, sempre à mão de semear, mas a solução é falsa porque a carne está transformada em ídolo e recusa sequer uma espreitadela para o espiritual. Os paradoxos da vida humana tornam-se comuns a todos porque todos esqueceram que tinham alma e assim aceitam costumes por onde passa o sórdido ou o abjecto.

A cabeça perdida representa a razão, única realidade em que Taoj acredita: «Cheio de horror de si e do seu mal-estar-no-mundo» (p.42). Mesmo quando encontra a razão, depois de várias aventuras, afinal, numa terrível imobilidade, não encontra a felicidade. As mil e uma imagens oferecidas pelo ecrã, o diálogo nas redes internéticas acaba por se revelar fictício ou falso. E grita: «o inferno está aqui, aqui dentro de mim (p.103)». Numa procura infindável, cai na procura impossível: os mistérios maiores de um Criador que não sabe nada sobre a sua própria Origem.

Na 2ª parte como que se inicia um outro romance: a procura de Taoj vai transformar-se na procura de um Deus que, como ele e à sua imagem, procura a sua felicidade. Uma ambição mais forte ainda. O ecrã das imagens dos códigos, das autoestradas internéticas continua a guiar Taoj, indiferente aos absurdos em que se encaixa a sua sede impossível de suster o desejo de desvendar todos os mistérios, mistérios que vê como ilusórios porque só são mistérios enquanto não se descobrem.

Indiferente aos valores do espírito que eleva a matéria e a sustenta até à eternidade, mesmo a carregar o peso das imagens dos «corpos amolgados pelos bairros da lata e os uivos das mulheres agredidas e a criança violentada como se fosse o lôdo dos pântanos» (p.270), inicia a nova caminhada centrada em Alfa, o Princípio Originário. Alfa representa o Deus Criador num mundo de nada, em que não vive, e em que a mudança é um atentado.

É ainda «na matéria em ascensão que Alfa descobre asas abertas para as distâncias do impossível» (p.294). O emergir da matéria com todos os seus absurdos (o big bang) é a saída para mais uma vez se enaltecer o mundo nascente da matéria. Na idolatria da matéria, todo o edifício do mundo do pensamento materialista ateu se ergue como se não tivesse limites, como se fosse o único possível e o único a que se deve ascender até uma vida só assente na felicidade terrena, assente no material.

As teorias revolucionárias, sem a dimensão metafísica do Homem, como pensava Dostoievski, não oferecem, acreditamos nós também, uma felicidade como o epílogo de todos os prazeres, prazeres a multiplicarem-se sem contenção e na ausência de uma porta do espírito para ultrapassar os limites da matéria.      

                                                        Teresa Ferrer Passos




[1] Texto escrito pela autora de Um Cientista e uma Folha de Papel em Branco, pouco antes da sua apresentação na Fnac do C. C. Colombo, em Lisboa, a 10 de Outubro de 2015. A apresentação esteve a cargo do Professor Doutor António Cândido Franco da Universidade de Évora.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Morreu o Dr. António Pires de Lima

António Pires de Lima (1936-2017)

A sua estirpe de cidadão, de causídico e de político deixava sempre uma marca de apreço em quem o escutava. Uma palavra sempre inteligente, um comentário político com o humor que criava uma extraordinária empatia, uma postura íntegra. Com uma personalidade forte, de pensamento inesperado e certeiro, repudiou oportunismos e faltas de honestidade na classe política. Poderíamos dizer que o seu afastamento da vida política foi uma peça a menos, e era importante, neste mundo pobre feito pelas linhas com que tantos se cozem. A não perder da memória o seu exemplo.

8 de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

domingo, 7 de maio de 2017

Uma vocação: a sementeira da Verdade

Perino del Vaga (1501-1547)

«Sei que em Nazaré, Mãe cheia de graça
Viveste pobremente, não querendo nada mais
Nem arroubamentos, nem milagres, nem êxtases
Embelezam a tua vida, ó Rainha dos eleitos!...
O número dos pequenos é bem grande na terra
Eles podem sem receio erguer os olhos para ti
É pela via comum, incomparável Mãe
Que te apraz caminhar guiando-os para o Céu.

Esperando o Céu, ó minha Mãe querida,
Quero viver contigo, seguir-te em cada dia
Mãe, ao contemplar-te, afundo-me absorta
Descobrindo no teu coração abismos de amor.
O teu olhar maternal desvanece os meus receios
Ensina-me a chorar, e a regozijar-me,
Em vez de desprezar as alegrias puras e santas
Tu queres partilhá-las, dignas-te abençoá-las.»

      Santa Teresa do Menino Jesus, «Por que te amo, ó Maria!»
(excerto do poema) in Obras Completas, Edições Carmelo, p.825.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O primeiro Papa que acreditou no testemunho de Lúcia

Papa Pio XII (1878-1958)
Numa Europa dilacerada pelos terríveis extremismos ditatoriais que mutilavam a paz nas nações, numa Europa de povos flagelados por uma segunda guerra mundial dizimadora de milhões de homens e mulheres, o Papa Pio XII, a 13 de Junho de 1940, data em que Portugal celebrava os 800 anos da sua fundação, publicou a primeira Carta Encíclica em que, aludindo ao contributo de Portugal para a missão evangélica, se referia às Aparições da Virgem Maria a três pastorinhos, no ano de 1917, em Fátima.

Em Dezembro desse mesmo ano de 1940, Lúcia escrevia-lhe uma carta solicitando a criação oficial da Devoção no mundo e, em especial, na Rússia, ao Imaculado Coração de Maria. Correspondendo a tão meritório pedido, menos de dois anos depois, em 31 de Outubro de 1942, Pio XII consagra o mundo ao Imaculado Coração de Maria, não deixando de sublinhar os momentos trágicos que a humanidade vivia "abrasada em incêndios de ódio", previstos já em 1917 pela Senhora vinda do céu e que se mostrava mais brilhante do que o Sol .

Neste caminho de louvor à Santíssima Virgem Maria, Pio XII, proclamou, em 1950, o Dogma da Assunção de Nossa Senhora, em corpo e alma, ao céu. As Aparições de Fátima, em 1917, foram para Pio XII, não duvidamos, o alento mais forte para esta decisiva proclamação perante um mundo desencontrado da paz, o seu valor mais forte.

4  de Maio de 2017
Teresa Ferrer Passos

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Uma autêntica espiritualidade na vida cristã

E Lúcia viu o coração de Maria cercado de espinhos...

«O grande desafio para nós, Santuário de Fátima, (...) é que os peregrinos passem de um conhecimento superficial do que aconteceu aqui e de uma devoção a Nossa Senhora sem qualquer outro enquadramento que não seja essa devoção geral a Nossa Senhora, (...) para a perceção de que Nossa Senhora aqui, mais do que falar dela, nos veio falar do lugar de Deus na vida crente, nos veio desafiar a uma autêntica espiritualidade (...). Perceber o que significa a vida cristã a  partir dos desafios que Nossa Senhora aqui nos lança, eis o que nos é proposto»

 Excerto de uma entrevista ao Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, publicada na revista Fátima Missionária Nº Especial Centenário das Aparições, Maio, 2017, p.17)