quinta-feira, 28 de julho de 2016

O Buda e os seus seguidores


Os crentes budistas frequentam templos,
templos erguidos em louvor do Buda,
templos com altares onde brilha o Buda
e rezam ao Buda e deixam-lhe oferendas
e esperam em troca os favores do Buda.

Mas o bom do Buda não desejou isto.

Ele descobriu coisas espantosas
sobre o ser humano, sobre a existência,
sobre a liberdade que há ao nosso alcance
de nos libertarmos da vil Lei da Dor.

E quis ensinar-nos o que descobriu.

Mas o seu caminho não é estrada plana
e é tão mais fácil construir uns templos
em louvor do Buda, com altares ao Buda,
e fazer em ouro imagens do Buda
e rezar ao Buda e deixar-lhe oferendas
e esperar em troca os favores do Buda…

28/7/2016

Fernando Henrique de Passos

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O mundo hoje

De massacre em massacre, de tortura em tortura...
E é assim que o mundo continua sem saber para onde vai.

27/7/2016
                                                  Teresa Ferrer Passos

domingo, 24 de julho de 2016

Há no firmamento...





"Há no firmamento
Um frio lunar,
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quási maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso.

Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
'Stou no meu olvido...
Dorme, coração..."


Fernando Pessoa, Obras Completas de Fernando Pessoa, Poesias I, 2ª edição, Editorial Ática, Lisboa, 1943, pp.81-82.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Perseguição



Andorinha-do-mar ártica

A voz que me falou de noite
Não quero escutá-la de dia.
Ah, nada existe em mim que se afoite
A escutar de novo o que essa voz dizia!

Chamou-me abismo de mim;
Chamou-me desencontrado;
Traidor que de longe vim
Crucificar meu sonho alado.

Chamou-me inútil e vão,
Tôrre de egoismo que a si própria mente.

Eu encolhi os ombros, indiferente...

Mas porque não escutaste, coração?

Eurico Collares Vieira, «Flores de Abismo»,
Colecção Poesia Nova, nº2, Lisboa, 1944.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Acontecimento raro


Incêndio das cartas astrológicas
Abismos a abrir-se no espaço sideral
Rajadas de vento a despentear galáxias
Sobressaltos nos ínfimos asteroides
Delírio do pó feito de estrelas
Dança ritual de mil planetas
Sob a chuva de energia cósmica
Que o destino convocou ao provocar
A conjunção de dois sóis…

20/7/2016

Fernando Henrique de Passos

Sintonia sem espaço




(Ao Fernando, no 23º aniversário do nosso primeiro encontro
                                   na Fundação Gulbenkian)


Nos laços do espaço, não há o teu espaço
e o meu espaço. Tudo se mistura numa nuvem
ou num céu azul, como se fosse puro acaso.

E tudo se transforma nos segundos
que contamos entre minutos.
As nossas vozes ecoam em silêncio
e tocam-se. São uma só, e distintas.

O nosso amor impõe-se numa   
distância, sem distância alguma.
E o nosso ser tem uma sintonia
que nenhuma razão explica.

E procuramo-la tantas vezes.
Procuramo-la até num tão simples gesto
como ligar um telemóvel.

20 de Julho de 2016

                                  Teresa Ferrer Passos

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A Fantástica Viagem


Estou sob a grande abóbada secreta
No bordo do mapa e no fim do mundo.
Daqui para a frente é sempre em linha reta
Através do vento gemebundo.

Deixou de haver lugares nesta jornada,
Apenas um relógio a servir de guia.
Entre o ponto de partida e a chegada
O espaço só de uma poesia.

Dar corda ao relógio antes de partir
É pôr a funcionar a estranha ponte
Que iguala os pontos que devia unir:
E assim, só de o olhar, já estou no horizonte…

13/7/2016

F.H.P.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Indícios


A forma invisível
Em torno da qual
Se enredam os teus sonhos

A falta de razão
Para um pôr-do-sol
Te parecer tão belo

A sombra rebelde do teu querer
Que te faz ir por outro lado
Diferente do que julgavas procurar

As palavras na música sem voz
Que te dizem aos ouvidos mil segredos
Que tu não tens palavras para repetir

:Eis alguns dos rostos
Do Senhor teu Deus

13/7/2016

Fernando Henrique de Passos